Inflamação no cérebro pode ser chave para progressão do Alzheimer, diz novo estudo liderado por brasileiros  

Inflamação no cérebro pode ser chave para progressão do Alzheimer, diz novo estudo liderado por brasileiros

Pesquisa publicada na revista Nature Neuroscience aponta para a comunicação entre células que causam a inflamação no cérebro como parte essencial da doença

Artigo publicado nesta quinta-feira (6), na prestigiada revista Nature Neuroscience, apresenta avanços significativos sobre o Alzheimer ao aprofundar a importância da comunicação entre células do cérebro que causam a neuroinflamação e, consequentemente, a progressão da doença. O trabalho foi liderado pelo laboratório do neurocientista Eduardo Zimmer, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) apoiado pelo Instituto Serrapilheira, que tem se destacado com estudos sobre diagnósticos e causas deste tipo de demência.

A pesquisa combinou exames avançados de imagem cerebral e biomarcadores em mais de 300 participantes, cobrindo todo o espectro da doença de Alzheimer. Os cientistas observaram que o acúmulo da proteína beta-amiloide (Aβ), uma das marcas mais conhecidas da doença, só provoca a reação dos astrócitos quando a microglia, célula de defesa do cérebro, também está ativada.

Essa comunicação entre microglia e astrócitos, que caracteriza a neuroinflamação, parece ser a ligação entre as alterações biológicas da doença e os sintomas que os pacientes apresentam. O estudo sugere que o cérebro precisa estar em um estado de inflamação para que a doença se estabeleça e progrida, levando ao acúmulo da proteína tau e a um declínio do desempenho cognitivo.

“A doença de Alzheimer é uma condição multifacetada, e o papel das células gliais tem sido cada vez mais reconhecido. Nossos achados ampliam dados experimentais anteriores ao fornecer a primeira evidência clínica de que a interação entre microglia e astrócitos é um fenômeno central na progressão da doença de Alzheimer, conectando a patologia da Aβ ao acúmulo subsequente de tau e ao declínio cognitivo”, afirma João Pedro Ferrari-Souza, primeiro autor do estudo e aluno de doutorado de Zimmer.

A descoberta abre uma nova e promissora frente para o desenvolvimento de terapias. Em vez de focar apenas nas proteínas Aβ ou tau, como tem sido a abordagem tradicional, tratamentos futuros podem ser direcionados para modular o "diálogo" entre microglia e astrócitos, células antes negligenciadas na literatura médica, de acordo com Zimmer.

“Esse estudo ajuda na concepção de uma visão menos neurocêntrica da doença de Alzheimer. Ou seja, os modelos biológicos devem agora incluir a comunicação entre microglia e astrócitos”, explica Zimmer. “Uma compreensão mais profunda de como essas células se comunicam pode oferecer informações valiosas para o desenvolvimento de terapias direcionadas às células gliais, com o objetivo de interromper a progressão da doença de Alzheimer.”

Abordagens que visem as células gliais, sozinhas ou combinadas com terapias anti-Aβ/tau, podem ajudar a retardar ou interromper a progressão da doença se ajustarem essa conversa celular de forma segura.

Em 2023, o neurocientista Eduardo Zimmer, apoiado pelo Instituto Serrapilheira, já havia descoberto que os astrócitos — células do sistema nervoso em formato de estrela — podem ter influência determinante nos casos de demência. A pesquisa anterior demonstrou que o mau funcionamento dessas células pode alterar os resultados de exames de neuroimagem (como o PET scan), que antes eram atribuídos exclusivamente a problemas nos neurônios. Essa pesquisa, que rendeu a Zimmer o prêmio “Blas Frangione Early Career Achievement Award”, abriu a possibilidade de que a manipulação dos astrócitos possa, no futuro, ajudar a recuperar parte da memória de idosos com a doença.

Sobre o Serrapilheira

Lançado em 2017, o Instituto Serrapilheira é uma instituição privada, sem fins lucrativos, que promove a ciência no Brasil. Foi criado para valorizar o conhecimento científico e aumentar sua visibilidade, ajudando a construir uma sociedade cientificamente informada e que considera as evidências científicas nas tomadas de decisões. O instituto tem três programas: Ciência, Formação em Ecologia Quantitativa e Jornalismo & Mídia. Desde o início de suas atividades, já apoiou financeiramente mais de 400 projetos de ciência e de jornalismo e mídia, com mais de R$ 120 milhões investidos.